Saturday, December 24, 2011

Havia uma garota naquele parque. Um parque aonde quase ninguém ia. Algumas crianças brincavam por perto, mas não perto dela. Estava sozinha em um canto; comecei a observá-la mais. Seria apenas minha impressão, ou seus olhos – cansados – estavam brilhando como se tivesse acabado de chorar? Havia um certo vazio, uma certa tristeza neles.
Alguns fios de seu cabelo se movimentavam, acompanhando o vento frio. Ela parecia não se importar. Aliás, frio era o que menos a incomodava agora. Ela se encolheu um pouquinho, e continuava presa em pensamentos. Pensamentos que pareciam que a assustavam. O que ela tanto pensava que a deixava incomodada? E por que as lágrimas voltaram?
Eu queria poder abraçá-la, poder dizer algo que a deixasse melhor. Ela precisava disso.
De repente ela piscou. De repente, eu pisquei. Não estava mais no parque.
Nunca tinha ido lá.
Na verdade, eu nem tinha saído da frente do espelho ainda.
Ei moço, você sabe que horas são? Acho que me perdi. Talvez tenha deixado passar tempo demais; ou o meu ônibus só esteja atrasado. Sabe moço, aquele ônibus que leva para Felicidade.Faz tempo que não pego um ônibus que me levasse a tal destino. Ou talvez ele só esteja esperando o momento certo de passar por aqui, me levar e me deixar pra sempre lá. Na tal da Felicidade. Você conhece, moço? Ou você se perdeu no tempo também? Tão bom seria se as coisas acontecessem quando quiséssemos, né? Ou não; porque aí, teríamos tudo facilmente, e seria um saco. Mas, ei, você já pegou o ônibus? Aquele que lhe falei; você sabe se é seguro? Garantido? Estou meio cansada de esperar, sabe? Esperando, o tempo passa. Passa tão rápido que não sei se já passou ou não. Ei moço, você sabe que horas são? 

Wednesday, October 12, 2011

Eu olho pra sua tatuagem e pro tamanho do seu braço e pros calos da sua mão e acho que vai dar tudo certo. Me encho de esperança e nada. Vem você e me trata tão bem. Estraga tudo. Mania de ser bom moço, coisa chata.
Eu nunca mais quero ouvir que você só tem olhos pra mim, ok? E nem o quanto você é bom filho. Muito menos o quanto você ama crianças. E trate de parar com essa mania horrível de largar seus amigos quando eu ligo. Colabora, pô. Tá tão fácil me ganhar, basta fazer tudo pra me perder.
E lá vem ele dizer que meu cabelo sujo tem cheiro bom. E que já que eu não liguei e não atendi, ele foi dormir. E que segurar minha mão já basta. E que ele quer conhecer minha mãe. E que viajar sem mim é um final de semana nulo. E que tudo bem se eu só quiser ficar lendo e não abrir a boca.
Com tanto potencial pra acabar com a minha vida, sabe o que ele quer? Me fazer feliz. Olha que desgraça. O moço quer me fazer feliz. E acabar com a maravilhosa sensação de ser miserável. E tirar de mim a única coisa que sei fazer direito nessa vida que é sofrer. Anos de aprimoramento e ele quer mudar todo o esquema. O moço quer me fazer feliz. Veja se pode.
Não dá, assim não dá. Deveria ter cadeia pra esse tipo de elemento daninho. Pior é que vicia. Não é que acordei me achando hoje? Agora neguinho me trata mal e eu não deixo. Agora neguinho quer me judiar e eu mando pastar. Dei de achar que mereço ser amada. Veja se pode. Anos nos servindo de capacho, feliz da vida, e aí chega um desavisado com a coxa mais incrível do país e muda tudo. Até assoviando eu tô agora. Que desgraça.
Ontem quase, quase, quase ele me tratou mal. Foi por muito pouco. Eu senti que a coisa tava vindo. Cruzei os dedos. Cheguei a implorar ao acaso. Vai, meu filho. Só um pouquinho. Me xinga, vai. Me dá uma apertada mais forte no braço. Fala de outra mulher. Atende algum amigo retardado bem na hora que eu tava falando dos meus medos. Manda eu calar a boca. Sei lá. Faz alguma coisa homem!
E era piada. Era piadinha. Ele fez que tava bravo. E acabou. Já veio com o papo chato de que me ama e começou a melação de novo. Eita homem pra me beijar. Coisa chata.
Minha mãe deveria me prender em casa, me proteger, sei lá. Onde já se viu andar com um homem desses. O homem me busca todas as vezes, me espera na porta, abre a porta do carro. Isso quando não me suspende no ar e fala 456 elogios em menos de cinco segundos. Pra piorar, ele ainda tem o pior dos defeitos da humanidade: ele esqueceu a ex namorada. Depois de trinta anos me relacionando só com homens obcecados por amores antigos, agora me aparece um obcecado por mim que nem lembra direito o nome da ex. Fala se tão de sacanagem comigo ou não? Como é que eu vou sofrer numa situação dessas? Como? Me diz?
Durmo que é uma maravilha. A pele está incrível. A fome voltou. A vida tá de uma chatice ímpar. Alguém pode, por favor, me ajudar? Existe terapia pra tentar ser infeliz? Outro dia até me belisquei pra sofrer um pouquinho. Mas o desgraçado correu pra assoprar e dar beijinho.

Tati B.
Só sei que eu estava pensando, e que eram recordações – até, de repente, me dar conta de que estou aqui, eu achava que estava lá.

- Water for elephants

Thursday, September 22, 2011

Tenho 90 anos. Ou 93. Uma coisa ou outra.
Quando temos cinco anos, sabemos até os meses de nossa idade. Mesmo por volta dos 20 sabemos quantos anos temos. Tenho 23, dizemos, ou talvez 27. Mas quando chegamos aos 30, algo estranho começa a acontecer. A princípio, é um mero sobressalto, um instante de hesitação. Quantos anos você tem? Ah, eu tenho - você começa confiante, mas depois para. Ia dizer 33, mas não é essa a sua idade. Você está com 35 anos. E isso o incomoda, pois você fica imaginando se não é o início do fim. Claro que é, mas ainda faltam décadas para você admitir isso.
Começamos a esquecer as palavras: elas estão na ponta da língua, mas, em vez de simplesmente saírem, permanecem ali. Subimos a escada para buscar alguma coisa e, quando chegamos lá em cima, não lembramos mais o que estávamos procurando. Chamamos um filho pelo nome de todos os outros e até pelo nome do cachorro antes de acertar. Às vezes esquecemos em que dia estamos. E, por fim, o ano.
Na verdade, não é que eu tenha esquecido. Simplesmente deixei de prestar atenção. Passamos o milênio, disso eu sei - tanto barulho por nada, todos aqueles jovens chiando de tanta preocupação e comprando comida enlatada porque alguém teve preguiça de deixar espaço para quatro dígitos em vez de dois -, mas isso pode ter sido no mês passado ou há três anos. O que importa? Que diferença há entre três semanas, três anos ou até mesmo três décadas de purê de ervilha, mingau e fraldas geriátricas?
Tenho 90 anos. Ou 93. Uma coisa ou outra.

- Water for elephants

Wednesday, September 21, 2011

Neologismo

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
que traduzem a ternura mais funda
e mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.
- Manuel Bandeira

Saturday, August 27, 2011

Era a primeira vez em meses que me acordava disposta; e estava querendo sair logo cedo, só para sentir o arzinho gelado da manhã.
Andando pelas ruas, tão presa em pensamentos, nem notei que estava na frente
daquele Café.
Aquele que me trazia tantas lembranças,
tanta saudade. Aquele que por meses havia parado de frequentar.
Tão boba, decidi entrar. Me sentei na nossa mesa. Aquela mesa, lembra? Aquela do fundo, onde sempre podíamos rir quando algum casal bizarro aparecia por ali pedindo um capuccino, e ninguém iria perceber que ríamos daquilo. Coloquei minha bolsa do lado, que estava meio aberta. Lembro-me que você sempre dizia
''Um dia você ainda vai perder algo por ai, por nunca fechar essa bolsa, menina!''. Mal sabia que o que eu perderia nem estava dentro da bolsa. Aquele moço que nos atendia, veio me atender. Acredita nisso? Depois de tanto tempo, ele ainda trabalhava aqui! Pedi o de sempre; você se lembra do que pedíamos? Torradinhas, um cafezinho, duas fatias de torta de morango e chocolate quente; lembra? Mas pedi apenas a torta e o chocolate quente. Foi estranho comer ali, sozinha.
Engraçado, durante meses me desviei de tudo que pudesse me lembrar você, e agora estava aqui. No Café que íamos todos os dias.
Varrendo os olhos por ali, tentando me distrair, notei que um casal de velhinhos estava sentado à minha frente. A risada dele contagiava, e ela parecia bem feliz também. Oh,
o amor. Eles me notaram. Pude perceber.
Enquanto tomava meu chocolate quente, meus ouvidos estavam alertas. Ela sussurrou para ele, com seus olhos na mesa, claro,
''O que ela tem, meu bem? Parece tão distraída, cansada...''E para a minha surpresa, aquele senhor respondeu: O que ela tem, querida, é saudade. Muita saudade.






Saturday, July 9, 2011

So it’s not gonna be easy. It’s gonna be really hard. We’re gonna have to work at this every day, but I want to do that because I want you. I want all of you, for ever, you and me, every day. Will you do something for me, please? Just picture your life for me? 30 years from now, 40 years from now? What’s it look like? If it’s with him, go. Go! I lost you once, I think I can do it again. If I thought that’s what you really wanted. But don’t you take the easy way out.

- Noah (The notebook)
- Ainda o amas? 
- Talvez. 
- Talvez? 
- Eu lembro-me dele quando ouço aquela música no rádio, eu vejo a foto dele várias vezes durante o dia, eu releio aquelas conversas do msn, eu penso nele antes de dormir e eu ainda peço a Deus para fazer com que os nossos caminhos se cruzem.
- Isso é amor, não é? 
- Amor pela metade. 
- Ele desistiu? 
- Ele nem se lembra.

 Talita Santos

Sunday, June 26, 2011

E agora, o que eu faço com o seu lado da cama? Está frio, e você deveria estar aqui. E o seu chá? Oh, meu amor, está esfriando. Você disse que logo voltaria. E a sua torta de morangos? Ela está esperando por você; assim como eu.
Sempre.
O que eu faço com suas coisas? Seu cheiro continua em minhas roupas; e você não irá voltar.
Já deveria saber.
Posso dar um jeito no chá, na sua torta, nas minhas roupas... Mas o que eu faço com meu coração?
Oh, pobrezinho.

Monday, May 9, 2011

     Respiro fundo e começo a me movimentar, levantando os pés do solo úmido e encharcado, prestes a agir quando de repente sou tomada por uma leve onda de calma, um impulso tranquilo que só pode ter um significado, que apenas uma pessoa pode provocar em mim. Uma calma tão oposta ao formigamento e ao calor provocado por Damen que não fico nem um pouco surpresa quando me viro e encontro Jude a meu lado.
 - Sabe até onde isso leva, certo? – Ele aponta para a ponte que balança, esforçando-se para manter a voz áspera, clara, mas o tremor de nervoso o entrega.
- Sei até onde leva as outras pessoas. – Dou de ombros, olhando para ele e para a ponte. – Mas não sei aonde pode me levar.

      Ele estreita os olhos, inclina a cabeça e me observa com calma e atenção dizendo com cuidado:
- Leva ao outro lado. Vale para todos. Não há filas separadas. Segregação de nenhum tipo. Deixe esse tipo de julgamento para o plano terreno.
     Encolho os ombros, nem um pouco convencida. Ele não sabe o que eu sei. Não viu o que eu vi. Como poderia saber o que se aplica ou não a mim?
- Mesmo assim – ele diz, ouvindo meus pensamentos em alto e bom som. – Não acho que seja hora de considerar a travessia. A vida já é curta demais, sabe? Mesmo nos dias em que parece muito, muito longa. Quando tudo acabar, será apenas um piscar de olhos, um lampejo para a eternidade, pode acreditar.


- Chama negra (Alyson Noël)

Saturday, April 16, 2011

Damon: Preciso de uma distração.
Andie: Pode me ligar para isso sempre que quiser.
Damon: O négocio é que.., Senhorita repórter sensual, preciso de ajuda para resolver um problema que está mexendo muito com a minha cabeça.
Andie: Conte-me sobre isso.
Damon: Estou apaixonado por uma mulher que nunca poderei ter.
Andie: Eu sabia. Percebo essas coisas. Então... Por que não pode tê-la? Ela está com outro cara?
Damon: Sim, mas essa não é a questão. A questão é que estou apaixonado por ela e... isso está me deixando louco. Não estou no controle.
Andie: Não confia em você quando está perto dela?
Damon: Não confio em mim perto de ninguém, Andie. Sou mau, Andie. Faço coisas... Mato pessoas.
Andie: Por que mata pessoas?
Damon: Porque eu gosto.  Está na minha natureza. É quem eu sou. Mas tenho que me comportar para protegê-la. Ela quer que eu seja um homem melhor, o que significa que não posso ser quem eu sou. Entende meu problema, Andie?
Andie: Talvez esse seja quem você é agora. O amor faz isso, Damon. Nos transforma.
O príncipe. Oh, o príncipe. Com seus olhos brilhantes e lindos, com aquele famoso sorriso torto, lábios avermelhados. Oh, o príncipe, tão encantador, poderia fazer qualquer garota se apaixonar por ele. Oh, o príncipe, com suas palavras tão doces e cheias de amor faria qualquer garota ficar encantada. O príncipe, com seu jeitinho tímido e às vezes brincalhão fazia qualquer garota ficar vidrada. Oh, o príncipe... O príncipe mudou, ficou frio. O príncipe virou um chato, o príncipe virou um sapo.

Tuesday, April 5, 2011


{...}
Nunca lhe confessei abertamente o meu amor, mas, se é verdade que os olhos falam, até um idiota teria percebido que eu estava perdidamente apaixonado.

- O morro dos ventos uivantes.
{...}
‘’Eu não sabia...’’, ele disse para si mesmo, quando sentiu finalmente a velocidade de seus pensamentos diminuir e pôde se entender com sua própria cabeça. ‘’Não sabia que o que a gente perde, e sabe que perdeu porque deixou perder, dói tanto... Que a gente pode chegar ao fim da vida e dizer que o que fez no mundo foi não fazer coisa nenhuma, mas... Mas, de repente... de repente... acontece. Coisas assim acontecem! De repente a gente vai ver e tanto deixou se perder que sobrou um... Das negativas. E só!’’

- O vôo do hipopótamo.

Monday, March 21, 2011


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Ela acordou de manhã, para começar mais um dia de escola. Era uma segunda-feira, e ela costumava odiar segundas; mas por algum motivo acordara disposta naquele dia. Feliz até, depois de algum tempo. Arrumou-se, tomou um suco, pegou sua mochila e foi para a escola. Ah, como era ótimo sentir o arzinho gelado, aquela brisa de leve. Pôs os fones de ouvido, coisa que adorava fazer; Escutar músicas com fones e ficar no seu próprio mundo. Chegava perto da escola e lembrara-se de que alguns dias atrás ela nem queria colocar seus pés lá. Porém, tudo passa. Ela sabia que, não importava o quanto havia sofrido por alguém que nem ligava, não importava que pessoas dissessem ter medo de perdê-la e no outro dia já a deixavam de lado, não importava quantas pessoas já tinham ido embora de sua vida... Alguém sempre iria esperá-la com a mochila ainda nas costas e um sorriso lindo no rosto, em frente à escola. O melhor amigo dela.

Monday, March 14, 2011



{...}
- Eles se gostavam, não gostavam?
- Às vezes, mesmo a gente se gostando, a separação acontece... Lembra do demônio que tira moedas da vida e as dá à morte? Outra de menos!
Túlio, sem sentir, balançava a cabeça, rejeitando a idéia.
-... Principalmente quando a gente deixa acontecer. São as ‘’molas da vida!’’. Quando as deixamos soltas, não tem perdão. E justamente as coisas mais preciosas são aquelas que podem acabar. Que não são infinitas. Que um dia, uma hora, se vão. É o que as torna preciosas, enquanto as temos, inestimáveis! É por isso que temos de zelar pelo que a vida nos oferece de bom! – Seu Quincas emitiu um suspiro profundo e entristecido. – Porque, senão, são essas as coisas que podemos perder.

- O vôo do hipopótamo.

Wednesday, March 9, 2011

Uma noite no paraíso.

Certa vez, dois amigos inseparáveis fizeram o seguinte juramento: aquele que casasse primeiro chamaria o outro para padrinho, mesmo que esse outro estivesse no fim do mundo.
Pois bem: um dos amigos morre e o outro, que estava noivo, não sabendo o que fazer, vai pedir conselhos a seu confessor. O pároco assegura que a palavra deve ser mantida. Então o noivo vai até o túmulo do amigo convidá-lo para o casamento.
O morto aceita o convite de muito bom grado. No dia da cerimônia, não diz uma palavra sobre o que vira no outro mundo. No final do banquete ele fala:
- Amigo, como lhe fiz este favor, você agora deve me acompanhar um pouquinho até minha morada.
O recém-casado, não resistindo à curiosidade, pergunta como era a vida do outro lado.
O morto, fazendo um pouco de suspense, responde dessa forma:
- Se quiser saber, venha também ao paraíso.
O outro concorda. O túmulo se abre e o vivo segue o morto.
A primeira coisa que vê é um lindo palácio de cristal, onde os anjos tocavam para os beatos dançarem e São Pedro, muito feliz, dedilhava seu contrabaixo. Mais adiante, o amigo lhe apresenta nova maravilha: um jardim onde as árvores, em vez de folhas, tinham pássaros de todas as cores, que cantavam.
- Vamos em frente - diz o morto ao amigo, que fica cada vez mais deslumbrado. - Agora vou levá-lo para ver uma estrela.
O recém-casado percebe que não se cansaria nunca de admirar as estrelas, os rios, que em vez de água eram de vinho, e a terra, que era de queijo.
De repente o noivo cai em si, lembra-se da noiva que ficara a esperá-lo e pede:
- Compadre, preciso voltar para casa, minha esposa deve estar preocupada.
- Como preferir.
Assim dizendo, o morto o acompanha até o túmulo, sumindo logo a seguir.
Ao sair do túmulo, o vivo fica assombrado com o que vê ao seu redor: no lugar daquelas casinhas de pedra meio improvisadas há palácios, bondes, automóveis; as pessoas todas vestidas de modo diferente. Para se certificar, pergunta o nome da cidade a um velhinho que por ali passava.
- Sim, é esse o nome desta cidade.
No entanto, ao chegar à igreja, é atendido por um bispo muito importante que, consultando os arquivos existentes ali, descobre que trezentos anos atrás um noivo havia acompanhado o padrinho ao túmulo e não tinha voltado nunca mais.

(Sylvia Manzano)

Friday, March 4, 2011



Ele: Quando você disse – pela primeira vez - que ia embora, eu não achei que fosse mesmo verdade, achei que estava brincando ou...Ela: Eu não iria brincar com esse tipo de coisa. Eu já me despedi de todo mundo que podia, e hoje à noite eu pego o avião, e eu só pedi pra passar uma tarde com você e deixaram. Porque você é o meu melhor amigo e queria ter pelo menos esse último dia aqui com você.Ele: Então... nós nunca mais vamos nos ver?Ela: Eu não sei, não tenho certeza. Nunca dá pra ter certeza de nada.
E então, foram para um parque e lá ficaram a tarde toda. Rindo, brincando, falando sobre besteiras, sobre o início da amizade dos dois... Curtindo um de seus,
prováveis, últimos momentos juntos. Quem os via, achava que eram um casal, e de fato realmente pareciam. Mas não eram.
O dia havia passado muito depressa. Como se o
tempo quisesse separá-los logo de uma vez. Já havia anoitecido e eles estavam no aeroporto.Ela: Tenho que ir agora.Ele: Ah não, passou tão rápido!Ela: Vou ficar só mais um minuto.Ele: Poderia ficar para sempre.Ela: Sabe, uma vez conheci uma menina...Ele: E...Ela: E ela disse que te amava, e te ama ainda. Ela disse que cresceu com você, aprendeu o que é ser feliz com você, disse que um dos melhores momentos de toda a vida dela, foram os que ela passava com você. Ela disse que se arrepende de todas as burradas que ela já fez, e que se orgulha por tudo que ela é hoje, por sua causa. Disse que nunca iria esquecer de você, haja o que houver... E... Oh, não. Tenho que ir agora. Não há mais tempo.
E com isso a garota lhe deu um abraço, ele estava com seus olhos cheios de lágrimas. Ela lhe deu um beijo em sua bochecha, olhou em seus olhos e disse:
Eu te amo.
E foi embora.
O garoto, vendo-a partir, sussurrou: Eu sempre a amei.
E ele sabia, tudo que a garota tinha dito, era sobre ela. Porém, agora, ele não podia fazer nada.
O tempo se foi.

Thursday, March 3, 2011


{...}
- Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos... Agora as duas estão mortas.
- Sua prima também?
- Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos... Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas. Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
- Vocês se amaram?
- Ela me amou. Foi a única criatura que...- Fez um gesto. - Enfim, não têm importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o.
- Eu gostei de você, Ricardo.
- E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?

– Venha ver o pôr do Sol. (Lygia Fagundes)

Thursday, February 24, 2011


Estava em um metrô, concentrada lendo um livro que acabara de comprar, quando um vento gelado entra pela porta - que foi aberta para a entrada de novos passageiros. Estremeço. Tenho a sensação de que alguém passou ao meu lado, mas continuo com os olhos em meu livro. Então, essa sensação volta e eu finalmente olho ao meu redor. Me deparo com um garoto à minha frente, sorrindo para mim. Ele era bem branco, devia ter por volta de 1.75 m, seus olhos eram verdes, seu cabelo bagunçado e preto ficava perfeito nele. O garoto, então, abriu a boca e disse:
- Você poderia me ajudar?
Porém, parecia que não era exatamente aquilo que ele queria ter dito. Antes de responder, pude perceber que apesar do sorriso que tinha em seu rosto, levava nos olhos uma expressão vazia.
- Sim. No quê? – eu respondi.
- Bom, preciso procurar uma nova estação.

Ajudei ele dando informações, ele anotou em uma folha azul-celeste. Ele escrevia de um modo que parecia estar com pressa, porém, apesar disso, sua caligrafia era perfeita. Ele terminou de escrever e me olhou. Olhou mesmo. Fundo em meus olhos. Parecia que ele podia ver através de mim. Parecia que ele podia me enxergar. Seu olhar não estava vazio, agora. Deu para perceber que ele me olhava com todo amor possivel e impossivel. Em seu olhar continha tristeza e... saudade? Senti que o conhecia de algum lugar. Mas, no minuto em que notei isso, ele deu as costas para mim. Não podia ficar ali, sentada, o vendo ir embora. Então levantei e fui atrás dele.
- Ei! – disse, tocando em seu ombro e fazendo-o virar para mim – Te conheço de algum lugar. É estranho. Parece que te conheço há muito tempo. Eu só não lembro da onde, nem quando. Eu...
- Precisamos sair daqui. – ele me cortou -  Agora. Ou vai acontecer outra vez.

Eu não entendi, como assim? Outra vez? Quando dei por mim, estava sendo levada para fora do metrô. E então tudo aconteceu muito rápido... O metrô saiu fora de seu trilho e bateu contra colunas. Eu soube. Eu iria morrer ali, se não tivesse saido. Mas, como ele soube? Então, olhei ao meu redor, e estava sozinha. Ele não estava ali. Onde tinha ido? Como fui deixar isso passar assim, despercebido? Eu tinha que encontrá-lo. Notei que havia uma folha azul-celeste no chão. A mesma folha em que ele supostamente tinha anotado informações sobre a próxima estação. Desamassei a folha e li o que estava escrito.
‘’Desculpe-me por ser desse jeito, mas eu tinha pouco tempo. Precisava lhe dizer o que não conseguia há muito tempo, em todas as vezes que tentava. Sempre que estava a ponto de dizer tudo, acontecia o pior. Agora que sei que você saberá, vou poder descansar em paz. Você me ensinou o que é ser feliz, você me ensinou o que é amar. Você mostrou o meu melhor lado. Obrigado por tudo. Talvez isso não vá valer nada, mas, eu te amo.
    Seu para sempre, haja o que houver,
                        amor.’’



Meu coração está despedaçado.
Está mesmo. Todos os sinais estão aí. Não consigo dormir, não consigo comer.. Toda vez que o telefone toca, meu coração dispara.. mas nunca é para mim. Nunca é ele. Sei que a culpa é toda minha. Fui eu quem estragou tudo. Mas isso não torna as coisas menos piores. Se a ferida foi feita por mim mesma ou não, ela está lá do mesmo jeito. E a verdade é que os seres humanos não funcionam direito de coração partido. Tipo assim, claro que dá para viver sem o David. Mas que tipo de vida seria essa? Tipo uma vida vazia. Tipo assim, o amor me apresentou uma oportunidade perfeita, e eu estraguei tudo. Apesar de os meus olhos estarem abertos, eu não estava enxergando. Foi por isso. Eu não estava enxergando absolutamente nada.

- A garota americana. (Meg Cabot)