Monday, March 21, 2011


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Ela acordou de manhã, para começar mais um dia de escola. Era uma segunda-feira, e ela costumava odiar segundas; mas por algum motivo acordara disposta naquele dia. Feliz até, depois de algum tempo. Arrumou-se, tomou um suco, pegou sua mochila e foi para a escola. Ah, como era ótimo sentir o arzinho gelado, aquela brisa de leve. Pôs os fones de ouvido, coisa que adorava fazer; Escutar músicas com fones e ficar no seu próprio mundo. Chegava perto da escola e lembrara-se de que alguns dias atrás ela nem queria colocar seus pés lá. Porém, tudo passa. Ela sabia que, não importava o quanto havia sofrido por alguém que nem ligava, não importava que pessoas dissessem ter medo de perdê-la e no outro dia já a deixavam de lado, não importava quantas pessoas já tinham ido embora de sua vida... Alguém sempre iria esperá-la com a mochila ainda nas costas e um sorriso lindo no rosto, em frente à escola. O melhor amigo dela.

Monday, March 14, 2011



{...}
- Eles se gostavam, não gostavam?
- Às vezes, mesmo a gente se gostando, a separação acontece... Lembra do demônio que tira moedas da vida e as dá à morte? Outra de menos!
Túlio, sem sentir, balançava a cabeça, rejeitando a idéia.
-... Principalmente quando a gente deixa acontecer. São as ‘’molas da vida!’’. Quando as deixamos soltas, não tem perdão. E justamente as coisas mais preciosas são aquelas que podem acabar. Que não são infinitas. Que um dia, uma hora, se vão. É o que as torna preciosas, enquanto as temos, inestimáveis! É por isso que temos de zelar pelo que a vida nos oferece de bom! – Seu Quincas emitiu um suspiro profundo e entristecido. – Porque, senão, são essas as coisas que podemos perder.

- O vôo do hipopótamo.

Wednesday, March 9, 2011

Uma noite no paraíso.

Certa vez, dois amigos inseparáveis fizeram o seguinte juramento: aquele que casasse primeiro chamaria o outro para padrinho, mesmo que esse outro estivesse no fim do mundo.
Pois bem: um dos amigos morre e o outro, que estava noivo, não sabendo o que fazer, vai pedir conselhos a seu confessor. O pároco assegura que a palavra deve ser mantida. Então o noivo vai até o túmulo do amigo convidá-lo para o casamento.
O morto aceita o convite de muito bom grado. No dia da cerimônia, não diz uma palavra sobre o que vira no outro mundo. No final do banquete ele fala:
- Amigo, como lhe fiz este favor, você agora deve me acompanhar um pouquinho até minha morada.
O recém-casado, não resistindo à curiosidade, pergunta como era a vida do outro lado.
O morto, fazendo um pouco de suspense, responde dessa forma:
- Se quiser saber, venha também ao paraíso.
O outro concorda. O túmulo se abre e o vivo segue o morto.
A primeira coisa que vê é um lindo palácio de cristal, onde os anjos tocavam para os beatos dançarem e São Pedro, muito feliz, dedilhava seu contrabaixo. Mais adiante, o amigo lhe apresenta nova maravilha: um jardim onde as árvores, em vez de folhas, tinham pássaros de todas as cores, que cantavam.
- Vamos em frente - diz o morto ao amigo, que fica cada vez mais deslumbrado. - Agora vou levá-lo para ver uma estrela.
O recém-casado percebe que não se cansaria nunca de admirar as estrelas, os rios, que em vez de água eram de vinho, e a terra, que era de queijo.
De repente o noivo cai em si, lembra-se da noiva que ficara a esperá-lo e pede:
- Compadre, preciso voltar para casa, minha esposa deve estar preocupada.
- Como preferir.
Assim dizendo, o morto o acompanha até o túmulo, sumindo logo a seguir.
Ao sair do túmulo, o vivo fica assombrado com o que vê ao seu redor: no lugar daquelas casinhas de pedra meio improvisadas há palácios, bondes, automóveis; as pessoas todas vestidas de modo diferente. Para se certificar, pergunta o nome da cidade a um velhinho que por ali passava.
- Sim, é esse o nome desta cidade.
No entanto, ao chegar à igreja, é atendido por um bispo muito importante que, consultando os arquivos existentes ali, descobre que trezentos anos atrás um noivo havia acompanhado o padrinho ao túmulo e não tinha voltado nunca mais.

(Sylvia Manzano)

Friday, March 4, 2011



Ele: Quando você disse – pela primeira vez - que ia embora, eu não achei que fosse mesmo verdade, achei que estava brincando ou...Ela: Eu não iria brincar com esse tipo de coisa. Eu já me despedi de todo mundo que podia, e hoje à noite eu pego o avião, e eu só pedi pra passar uma tarde com você e deixaram. Porque você é o meu melhor amigo e queria ter pelo menos esse último dia aqui com você.Ele: Então... nós nunca mais vamos nos ver?Ela: Eu não sei, não tenho certeza. Nunca dá pra ter certeza de nada.
E então, foram para um parque e lá ficaram a tarde toda. Rindo, brincando, falando sobre besteiras, sobre o início da amizade dos dois... Curtindo um de seus,
prováveis, últimos momentos juntos. Quem os via, achava que eram um casal, e de fato realmente pareciam. Mas não eram.
O dia havia passado muito depressa. Como se o
tempo quisesse separá-los logo de uma vez. Já havia anoitecido e eles estavam no aeroporto.Ela: Tenho que ir agora.Ele: Ah não, passou tão rápido!Ela: Vou ficar só mais um minuto.Ele: Poderia ficar para sempre.Ela: Sabe, uma vez conheci uma menina...Ele: E...Ela: E ela disse que te amava, e te ama ainda. Ela disse que cresceu com você, aprendeu o que é ser feliz com você, disse que um dos melhores momentos de toda a vida dela, foram os que ela passava com você. Ela disse que se arrepende de todas as burradas que ela já fez, e que se orgulha por tudo que ela é hoje, por sua causa. Disse que nunca iria esquecer de você, haja o que houver... E... Oh, não. Tenho que ir agora. Não há mais tempo.
E com isso a garota lhe deu um abraço, ele estava com seus olhos cheios de lágrimas. Ela lhe deu um beijo em sua bochecha, olhou em seus olhos e disse:
Eu te amo.
E foi embora.
O garoto, vendo-a partir, sussurrou: Eu sempre a amei.
E ele sabia, tudo que a garota tinha dito, era sobre ela. Porém, agora, ele não podia fazer nada.
O tempo se foi.

Thursday, March 3, 2011


{...}
- Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos... Agora as duas estão mortas.
- Sua prima também?
- Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos... Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas. Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
- Vocês se amaram?
- Ela me amou. Foi a única criatura que...- Fez um gesto. - Enfim, não têm importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o.
- Eu gostei de você, Ricardo.
- E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?

– Venha ver o pôr do Sol. (Lygia Fagundes)